Tese da UnB revela pouca segurança para obras raras no Brasil

Trabalho, que figura na lista de vencedores do Prêmio Capes de Tese 2015, traz diagnóstico das instituições guardiãs de livros raros em todo o país

O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. - Da Secretaria de Comunicação da UnB

Segurança contra roubo e furto de livros raros: uma perspectiva sob a ótica da economia do crime e da teoria da dissuasão. Esse é o título da tese escrita por Raphael Greenhalgh – hoje doutor em Ciência da Informação pela Universidade de Brasília (UnB) –, que concorre aoGrande Prêmio Capes de Tese, no dia 10 de dezembro.

Esta será a segunda etapa do Prêmio Capes de Tese 2015, que condecorou sete pesquisas da UnB em diferentes áreas do conhecimento. Participam da última fase os trabalhos reconhecidos como melhor tese em Ciências Biológicas, Exatas e Humanas. Das 48 assim classificadas, apenas três serão contempladas.

O trabalho de Raphael Greenhalgh – que fez graduação, mestrado e doutorado na UnB e atualmente é servidor da Biblioteca Central da Universidade – foi o melhor na área de Ciências Sociais Aplicadas I e surgiu a partir de uma desconfiança.

“Eu sentia que era grande o número de roubos e furtos de livros raros nas instituições que possuem esse tipo de obra, e que os cuidados adotados não eram os mais adequados para combater esses crimes. Mas o sentir nem sempre reflete a realidade. Por isso, quis verificar a questão cientificamente”, conta.

Julio Minasi/Secom UnB
Pesquisa do servidor da UnB Raphael Greenhalgh concorre a prêmio de melhor tese

Na elaboração da tese, o então estudante enviou questionários a todas as instituições que possuem livros raros, cadastradas no Plano Nacional de Recuperação de Obras Raras, levantou crimes ocorridos, com a ajuda das Polícias Federal e Civil, e consultou processos judiciais referentes a cada caso. Também entrevistou especialistas, um delegado da Polícia Federal e membros do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

“Meu trabalho foi mais um diagnóstico, mas também fizemos sugestões para que se valorizem mais essas obras, o patrimônio cultural”, explica Greenhalgh. “Verificamos, por exemplo, que o Iphan não é muito combativo em relação ao acervo específico de livros raros. Na legislação, o crime é enquadrado como roubo e furto comum, e não se leva em consideração que é um objeto raro ou insubstituível. E, na Justiça, vi que as penas e as multas dadas são medianas, nunca as máximas”.

Das 150 instituições que receberam o questionário do estudante, 82 responderam. E o que ele constatou foi que, dessas, nenhuma possui a totalidade das condições adequadas para a proteção e a preservação do acervo de livros raros. “Das medidas que eu perguntei sobre segurança, não se usa nem a metade”, revela Raphael Greenhalgh.

Orientadora da tese, a professora Miriam Paula Manini destaca a ausência de políticas de preservação de livros no Brasil. “Se existissem tais políticas, os acervos estariam mais bem equipados. No universo da pesquisa do Raphael, muitos dos respondentes não têm câmera instalada, ou mais de um funcionário no setor. Por mais que as instituições tenham programas ou setores de preservação, não há uma política nacional a que essas instituições devam obedecer”, informa.

A docente ressalta ainda que nem todos os furtos ou roubos de livros raros são registrados. “Há muitos casos não denunciados de funcionários que roubam ou que facilitam a prática do ato. Então, não se faz o registro por uma série de questões, como o medo”, afirma Miriam.

Segundo a orientadora, houve outros empecilhos no desenvolvimento da pesquisa. “O Raphael estava buscando informações sobre crimes e criminosos, sentimos uma grande resistência das instituições para responder às questões enviadas".

Miriam Paula Manini reforça que o mérito da premiação da tese é do servidor da UnB. "Ele é prata da casa e menino de ouro! Fizemos uma boa dobradinha”, exclama. “O Programa de Pós-Graduação da Ciência da Informação está em festa, é uma felicidade comemorarmos com toda a UnB.”

CERIMÔNIA – A premiação, marcada para ocorrer no próximo dia 10, na sede da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), em Brasília, abarcará o Prêmio Capes de Tese e o Grande Prêmio Capes de Tese. Serão concedidos, ainda, pela parceira Fundação Carlos Chagas, valores em dinheiro aos vencedores nas áreas de Educação e de Ensino e àqueles que receberam Menção Honrosa em cada uma delas.

Prêmio Capes de Tese consiste em certificado de premiação ao orientador, coorientador(es) e ao programa em que foi defendida a tese; certificado de premiação e medalha para autor; auxílio equivalente a uma participação em congresso nacional para o orientador, no valor de R$ 3 mil; bolsa para realização de estágio pós-doutoral em instituição nacional de até três anos para o autor da tese, podendo converter um ano em estágio pós-doutoral fora do país em uma instituição de notória excelência na área de conhecimento do premiado.

Grande Prêmio Capes de Tese emitirá certificado de premiação ao orientador, ao coorientador e ao programa em que foi defendida a tese; certificado de premiação e medalha para autor; auxílio equivalente a uma participação em congresso internacional para o orientador, no valor de R$ 6 mil; bolsa para realização de estágio pós-doutoral em instituição nacional de até cinco anos para o autor da tese, podendo converter um ano em estágio pós-doutoral fora do país em uma instituição de notória excelência na área de conhecimento do premiado; e 15 mil dólares para o premiado, concedidos pela Fundação Conrado Wessel.

A UnB ainda concorre ao prêmio da Capes com tese de doutorado defendida no Departamento de Engenharia Civil. Matéria sobre esse trabalho será publicada nesta semana no portal da Universidade.